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XVI CONFERÊNCIA LATINO-AMERICANA DE COMUNIDADES TERAPÊUTICAS

De 7 a 9 de dezembro realizou-se no Expo Dom Pedro, em Campinas (SP), a XVI Conferência Latino-Americana de Comunidades Terapêuticas (Clact Brasil) e o I Congresso Estadual de Políticas sobre Drogas (Cepad). O tema escolhido – “Comunidades terapêuticas: conservar a essência de portas abertas para a inovação” – foi abordado em duas principais dimensões: “Aspectos técnicos e teóricos” e “Desafios para o biênio”. Estavam presentes cerca de 1.000 pessoas de todo o Brasil e de 12 países.

            A terapeuta ocupacional Aline Coraça Trevelin participou e apresentou dois pôsteres abordando o trabalho que vem sendo realizado nos setores de pacientes dependentes químicos masculinos e femininos do Prédio Central (serviço SUS) do Instituto Bairral de Psiquiatria. Os pôsteres foram elaborados por Aline juntamente com a terapeuta ocupacional Juliana Cristina dos Santos Ribeiro. Um deles busca demonstrar uma proposta de desenvolvimento da prática clinica da terapia ocupacional com pacientes dependentes de drogas ilícitas, focada principalmente no adoecimento ocupacional vivido por esses indivíduos e usando como base a teoria dos Estágios Motivacionais. Por meio dessa referência o grupo é conduzido considerando a necessidade demonstrada durante quatro fases: pré-contemplação, contemplação, ação e manutenção.

            A proposta abrange cerca de 100 pacientes (homens e mulheres) internados de forma predominantemente voluntária no Instituto Bairral por um período médio de 75 dias. Pretende-se que durante esse tempo o paciente, ao alcançar as quatro fases, esteja preparado para a alta, com um planejamento de sua rotina extra-hospitalar, a qual visará à continuidade em serviços da rede, tais como CAPS- AD, grupos de mútua ajuda, “repúblicas”, etc.

            A reestruturação da vida ocupacional, de acordo com as demandas do indivíduo, é uma das principais metas do trabalho, visto que, além de constituir um indicativo de saúde, auxiliará como um fator de promoção e proteção da saúde do paciente após sua alta médica.

            “A reorganização da rotina do dependente químico” é o título de outro trabalho por elas desenvolvido, o qual tem como um dos focos principais o desdobramento de uma rotina com base num instrumento de avaliação validado no Brasil denominado “Lista de Papéis Ocupacionais”. Ao término do tratamento é realizada uma abordagem grupal, na qual os pacientes fazem um levantamento por meio do instrumento supramencionado. O preenchimento desta lista ajuda-os a reconhecer as perdas ocupacionais e sociais causadas pela dependência química e delimita os papéis que são considerados relevantes e que desejariam retomar no “futuro”. A partir deste ponto é elaborada, juntamente com os pacientes, uma rotina na qual possa ser viabilizada a inclusão desses papéis. Na elaboração da rotina enfoca-se a capacidade do mesmo de planejar e organizar sua vida ocupacional a partir de seus desejos, dentro de suas possibilidades, limitações e do ambiente no qual está inserido.

            O evento contou com palestrantes nacionais e internacionais de renome, que estiveram compartilhando seu conhecimento e experiência, como o presidente da Associación Proyecto Hombre España, Luis B. Bononato Vázquez, que falou sobre a “Comunidade terapêutica inserida na política de drogas”. O primeiro centro dessa associação foi aberto em 1984 e unifica as 27 fundações do Projeto Hombre na Espanha que trabalham em prevenção, tratamento e reinserção de pessoas com problemas de drogas e outras adicções em 210 instalações e atuação de 20 profissionais.

            O projeto trabalha com oito comissões de especialistas:

  • Plano estratégico
  • Avaliação
  • Inovação
  • Formação
  • Comunicação
  • Prevenção (escola e trabalho)
  • Voluntariado
  • Internacional

            Bononato ressaltou a importância de um trabalho conjunto envolvendo a administração pública, as empresas e ONG´s. Várias campanhas de prevenção têm sido feitas no âmbito dessa mobilização em conjunto com o governo espanhol e a Escuela de Familias para sensibilizar jovens e famílias. Analisando um estudo feito de 2012 a 2016 pelo referido projeto, chegou-se às seguintes conclusões:

  • Como substância única, a cocaína situa-se em primeiro lugar, ainda que o álcool, em qualquer de seus formatos, a supere.
  • Uma de cada dez pessoas que inicia o tratamento o faz por problemas com a cannabis.
  • Existe uma tendência de baixa do uso de álcool.
  • Observam-se diferenças nas idades do uso abusivo em função das substâncias, sendo o álcool e a cannabis as de início mais precoce.

Considerando estas conclusões, os conclaves formularam algumas recomendações:

  • Investir na reinserção sociolaboral.
  • Elaborar estratégias de prevenção, detecção precoce e intervenção no âmbito laboral.
  • Implantar recursos de apoio que facilitem o acesso a mulheres com encargos familiares e de trabalho.
  • Analisar profundamente o impacto dos abusos sofridos, especialmente em mulheres, pelo uso de drogas.
  • Melhorar a intervenção com o ambiente sociofamiliar.
  • Promoção da formação e emprego.
  • Coordenação com a rede pública de saúde mental.
  • Incentivar a aplicação de medidas alternativas à prisão.

            Há algumas ações ou atividades que se fazem no nível europeu (entre todos os países membros), porque se considera que é mais eficaz e pode conseguir mais valor agregado e fazê-lo juntos, porém as legislações e políticas são decididas em nível nacional.

            A vantagem da maneira como funciona na Europa é que ocorre um diálogo muito mais técnico e com mais evidência científica do que antes, porém isso não significa que as decisões tenham deixado de ser políticas.

            O papel dos países e dos programas de saúde pública é muito importante, e não só falando do álcool. Na Europa, o comércio não tem todos os direitos. Por exemplo: com o tabaco, na Europa, os governos têm obtido resultados importantes em consequência das medidas tomadas para reduzir o consumo de tabaco, evitar enfermidades como o câncer, etc.

Aline Coraça Trevelin, terapeuta ocupacional do Instituto Bairral de Psiquiatria.

Aline Coraça Trevelin, terapeuta ocupacional do Instituto Bairral de Psiquiatria.

Aline Coraça Trevelin e o diretor superintendente do Instituto Bairral Nivaldo José Caliman.

Aline Coraça Trevelin e Nivaldo José Caliman, diretor superintendente do Instituto Bairral .

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